"LIBERTAS QUAE SERA TAMEM", LIBERDADE AINDA QUE TARDIA
21 DE ABRIL
| - 1746: Nasce em Pombal, distrito de S. José d’el Rei (hoje Tiradentes), Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier. Os pais são Domingos da Silva Santos, nascido em Portugal, e Maria Antónia da Encarnação Xavier, nascida na Vila de São José d’el Rei (Brasil). - 1755: Morre Maria Antónia; o viúvo e os órfãos mudam-se de vez para a Vila de São José. - 1757: Órfão de pai. - 1780: Arregimenta-se como soldado. - 1781: É promovido a Alferes. - 1786: A mando do governador da capitania de Vila Rica, leva brilhantemente a cabo estudos demográficos, geográficos, geológicos, mineralógicos - quer de aplicação civil, quer militar. - 1788: Envolve-se na Inconfidência contra a Coroa portuguesa - 1789: Como conspirador, é preso no Rio de Janeiro. - 1792: É enforcado em praça pública e depois esquartejado. À BEIRA DO FIM... Tiradentes incita os Inconfidentes.- 1789, Rio de Janeiro. A 1º de maio aparece na cidade o coronel Joaquim Silvério. Logo trata de visitar - e com que freqüência – o conde de Resende. No dia 2, grande azáfama. Cubículos especiais são mandados construir em algumas das piores prisões. A sua guarda pessoal passa a ser constituída exclusivamente por portugueses. Dois granadeiros são encarregados de vigilância extraordinária. Informações sobre as origens de todos os seus soldados são solicitadas com urgência – estes são portugueses, aqueles são brasileiros.... Os granadeiros vigiam Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, por causa do ofício que aprendera com o padrinho. Agora é alferes do Regimento, pago por Vila Rica, Minas Gerais. Procurava gente que o ajudasse a libertar o Brasil através duma conspiração abominável. Sabedor de tal crime, o governador de Minas havia encarregado o Coronel, amigo do suspeito, de seguir seus movimentos e comunicar seus achados diretamente ao Vice-Rei. Tiradentes sonha. Ao ajudante de artilharia Nunes Cardoso, proclama: - Esta terra há ser um dia maior que a Nova Inglaterra! Mas as suas riquezas só as poderemos alcançar no dia em que nos libertarmos do jugo dos portugueses, para sermos os senhores da terra que é nossa. Nunes Cardoso empalidece. Roga-lhe que nunca mais se refira a tais assuntos… Mas Tiradentes não desiste. Pede a várias pessoas que lhe traduzam livros políticos ingleses, também a Declaração da Independência americana. Alguns dos livros têm até referências elogiosas à República… Em Vila Rica, na casa de João Rodrigues de Macedo, chegara mesmo a exibir a lista, por ele levantada, dos habitantes da capitania e comentara: - Têm Vossas Mercês aqui todo este povo açoitado por um só homem, e nós todos a chorarmos como negros – ai, ai... E de três em três anos vem um, e leva um milhão; e os criados levam outro tanto; e como hão-de passar os pobres filhos da América? Se fosse outra nação já se tinha levantado! Os amigos pedem-lhe que pare. "Além disso, tens estado a ser seguido por dois granadeiros", informam-no. Tiradentes primeiro pensa em liquidá-los. Depois opta por regressar mais depressa a Minas, quem sabe se na mira de precipitar o golpe... Pede um bacamarte emprestado e inicia os preparativos para a fuga. Mas, vigiado como anda, logo percebe que é impossível fugir. Esconde-se. Em viagem anterior, havia curado a chaga cancerosa no pé da filha de uma viúva. Pede-lhe ajuda. O decoro manda que não alberguem homem em casa. Tiradentes, por sua recomendação, vai para casa do ourives Domingos Fernandes, guiado pelo Padre Inácio Nogueira, sobrinho da viúva. Aí entra, no dia 7de maio, por volta de dez da noite. O desaparecimento de Tiradentes provoca pânico entre os adversários. Na manhã do dia 8, pede ao padre que visite o coronel Joaquim Silvério, que continua a julgar seu amigo. O delator, que periodicamente envia relatórios escritos ao Vice-Rei sobre as atividades do amigo, finge-se preocupado. Quer saber do paradeiro de Tiradentes para poder ajudá-lo... Mas o padre é jesuíta, contorna a inquirição, afirma não morar na Corte. Silvério não desarma e, ao encontrar na rua, no dia seguinte, outro clérigo, pergunta pelo padre Inácio. - Tenho bom negócio a propor-lhe. O outro cai na esparrela e eis o padre Inácio arrastado para o palácio do Vice-Rei. Pessoa comum, não resiste às ameaças, inclusive de morte. A teia começa a ser tecida. INFRA-ESTRUTURA I Já no Centro, em Minas Gerais, e também em Mato Grosso, a presença de ouro e diamantes, recentemente revelada, produz outro tipo de sistema econômico. São Paulo era a província em que mais tomara forma uma população brasileira autêntica, pronta a tomar posse de tudo a que pudesse lançar mão: mineral, vegetal, ou… humano. Depressa irrompem por Minas e Mato Grosso e não viram a cara ao confronto com aqueles que se lhes opõem. Assim, em 1708, no Rio das Mortes, chacinam os emboabas. Este é a alcunha tupi que davam aos "reinois" (portugueses que ensacavam ouro), pois emboaba quer dizer galinha ou pinto calçudo, evocação sarcástica das botas de cano alto usadas pelos portugueses que vinham da Metrópole para sacar e enviar para Lisboa o ouro do Brasil. A cidade principal da capitania é Vila Rica, vinte mil habitantes, luxo, esbanjamento, aventura, sangue. E a nova situação afeta os mercados do Norte, pois "isto anda tudo ligado". O preço dos negros sobe consideravelmente nos mercados de escravos. Tanto basta para que, no Reino, os poderosos imponham as suas vontades: esse ouro pertence à Metrópole e não à Colônia de onde é extraído. Se necessário, não vão hesitar em recorrer à força. Porém, o tempo é amigo da distância e esta é irmã do desrespeito. Os escravos são trocados por ouro, através da Baía. As trocas comerciais estimulam o aparecimento de novas necessidades e, conseqüentemente, alarga-se o leque das ofertas. A sociedade prospera. Em Minas, e também em São Paulo, há grandes feiras. Rasgam-se caminhos para o Sul, sedimenta-se o território. O gado vem do Rio Grande, quer para o abate, quer para a produção leiteira. A repressão aumenta, ciclo vicioso. Novas leis ditando os direitos da Coroa sobre o ouro. Igualmente visando pôr fim ao contrabando, a revolta cresce e nessa revolta começa a germinar uma idéia: nacionalidade. Como todas as idéias, tem uma história e um precursor, que por sua vez tem nome: Filipe dos Santos. A PRISÃO O cerco aperta. A casa parece deserta. Um soldado informa que um homem se escondeu no sótão com uma arma na mão. Vidigal, incerto, acaba por mandar forçar a entrada. Irrompe no sótão, rodeado por dezenas de soldados. O homem escondido encara todos de frente, mas não reage, não fala. Entrega-se. Veste o dólman. Põe o chapéu. - Que pretendia fazer com o bacamarte? -Resistir, mas são tantos…
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